Por Priscilla Cruz, palestrante, mentora, treinadora comportamental e psicanalista
Tem fase em que a gente está tão dentro do problema que só consegue enxergar o problema.
A decisão que não sai. A equipe que precisa de direção. O negócio que pede um novo caminho. A vontade de crescer acompanhada daquela pergunta incômoda: “Será que eu estou pronta?”
Quando tudo acontece ao mesmo tempo, é fácil confundir movimento com avanço. A gente corre, resolve urgências, atende todo mundo e, no fim do dia, continua sem saber qual é o próximo passo.
Eu conheço esse lugar. E conheço também a diferença que faz ter alguém ao nosso lado para ajudar a olhar além do furacão.
Já investi em mentores que me ajudaram a ampliar a visão, organizar perguntas e perceber possibilidades que, no meio da correria, eu não estava conseguindo enxergar. Eles não viveram minha vida por mim, nem decidiram o meu caminho. Mas me ajudaram a sair do redemoinho por alguns instantes, pensar com mais clareza e voltar para a ação com outra perspectiva.
Hoje, como mentora de mulheres e lideranças, acompanho pessoas que querem se desenvolver, mas nem sempre sabem por onde começar. Algumas precisam fortalecer o autoconhecimento para compreender seus padrões, suas forças e o que as faz recuar. Outras precisam se comunicar com mais clareza, ocupar seu espaço e mostrar o valor do que fazem. Há também quem esteja diante de uma nova fase profissional e precise construir um posicionamento estratégico.
Essas frentes se encontram. Autoconhecimento sem ação pode virar uma lista de descobertas que não muda a rotina. Comunicação sem clareza pode fazer uma pessoa competente passar despercebida. Posicionamento sem coerência pode soar como personagem. O desenvolvimento acontece quando a pessoa começa a se compreender melhor e transforma essa compreensão em escolhas, conversas e atitudes.
É por isso que a mentoria não deveria ser uma conversa cheia de frases prontas. Um bom processo precisa partir da realidade de quem está sendo acompanhado: quais desafios enfrenta, o que deseja construir, que recursos já possui e o que precisa desenvolver. O mentor contribui com perguntas, experiência, escuta e direção. O mentorado participa, testa possibilidades e decide o que faz sentido para o seu caminho.
Uma pesquisa da Endeavor com mil empresas brasileiras, publicada pela Pequenas Empresas & Grandes Negócios, observou que recebiam mentoria 58% dos negócios classificados no estudo como de alta performance e todos os 31 empreendedores considerados de alto impacto. O levantamento é de 2016 e não prova que a mentoria, sozinha, fez essas empresas crescerem. Mas ajuda a mostrar que buscar orientação e ampliar o próprio repertório também faz parte da jornada de muitos empreendedores.
Mentoria pode ser valiosa para quem lidera uma equipe, empreende, administra uma empresa ou está se preparando para assumir novos desafios. Também pode ajudar quem sente que tem competência, mas ainda não consegue expressá-la com segurança e consistência.
Porque oportunidade não lê pensamento. Se as pessoas não compreendem o valor do que você faz, podem não lembrar de você quando surgir uma oportunidade. Talento que ninguém entende não vira escolha. Comunicar o próprio trabalho e se posicionar com clareza também fazem parte do desenvolvimento profissional.
Isso não significa que toda pessoa precise de um mentor o tempo inteiro. Significa reconhecer quando uma conversa estruturada, com alguém preparado para contribuir com aquele desafio, pode ajudar a destravar uma decisão ou ampliar a visão. E significa escolher com cuidado: experiência no tema, capacidade de escuta, respeito à realidade do mentorado e clareza sobre o que a mentoria oferece são pontos importantes.
Eu acredito na mentoria porque já ocupei os dois lugares. Já busquei orientação para mim e hoje acompanho mulheres e lideranças na construção de mais autoconhecimento, comunicação e posicionamento. Essa experiência me ensinou que pedir apoio não apaga nossa autonomia. Pode nos ajudar a exercê-la com mais clareza.
Talvez você esteja no meio de um furacão agora. Antes de se cobrar por não ter todas as respostas, tente se perguntar: o que eu não estou conseguindo enxergar daqui de dentro?
Às vezes, essa pergunta é o começo de um novo movimento.
Fonte: pesquisa Endeavor, Desafios dos Empreendedores Brasileiros 2016, citada pela Pequenas Empresas & Grandes Negócios na matéria “Qual o segredo de quem cresce na crise?”.

















