Opinião: “2020: o ano em que minha casa me ganhou”

Uma das lembranças que vai ficar em minha memória sobre o ano de 2020 foi o tempo que passei dentro de casa. Sim, é um privilégio. Passar tanto tempo nela durante horas, ao longo de intermináveis dias e noites, infelizmente não foi uma opção para milhões de brasileiros que precisavam ser arriscar para ter de sustentar a si mesmos e suas famílias.

Assim, ter a possibilidade de exercer meu ofício dentro de casa, usando de forma quase obsessiva os ambientes com iluminação, segurança – outro privilégio – computador, internet e um pouco de quietude são lembranças difíceis de esquecer ao longo desses meses de 2020, que teima em não acabar.

Exceção à minha infância, nunca passei tanto tempo dentro de casa como nesse ano.

Claro que o lar era outro – o dos meus pais. Mas a lembrança de ficar adulto era isso: ter independência para passar mais tempo fora dela, sair, ir para rua se divertir, trabalhar e no final do dia voltar. Que saudade! Ter a obrigação de sair de casa cedo e, às vezes, não ter horário para voltar sempre significou para mim obrigação e liberdade, responsabilidade e sinais de maturidade, coisas de quem sempre pensou que a casa é o lugar para voltar, mas a rua tem também muita diversão.

Isso mudou em 2020.

Mudou porque cada lâmpada queimada, cada torneira gotejando e cada eletrodoméstico que estava velho, mas funcionando, precisou ser trocado e consertado. Claro, o uso desses objetos chegou perto do limite com o passar do tempo em casa. E a gente ainda precisava vê-los daquele jeito…

Não foi possível fugir. Bem que eu tentei – e sinceramente ainda tento –, mas os problemas relacionados à estrutura e ao funcionamento da minha casa se tornaram questões inadiáveis. Afinal, no dia seguinte a gente acorda, e não tendo como ir para rua para ir trabalhar e estudar lembramos que é muito provável que os mesmos problemas da residência ainda estejam lá, só que com a irritante verdade de que eles precisam ser resolvidos.

Lembrando Roberto DaMatta, a casa e a rua nunca ficaram tão distantes do ponto de vista emocional: a rua o local de perigo eminente por onde circula o vírus; a casa o local de proteção e abrigo, e o único lugar para circular durante todo esse tempo. Acredito inclusive que minha casa foi diminuindo de tamanho, de tanto que eu circulei por dentro dela.

Que em 2021 a gente possa voltar para rua, e que a casa – aquele local de amor, segurança e conforto – seja uma opção, não um confinamento.

Carlos Henrique de Vasconcellos Ribeiro é docente do Mestrado Profissional em Gestão do Trabalho e Coordenador do Curso de Educação Física da Universidade Santa Úrsula.

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